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Categoria: Cantinho Poético

R e f l e x o

saotome 12/02/2010 @ 15:59

Pela noite longa e fria,
Adensa-se a solidão
E um arrepio de saudade
Estremece um coração.
O vento intruso e sibilante,
Como o tanger plangente
Duma guitarra esquecida,
Entra pela pequena frincha
Da janela carcomida
Pelas intempéries da vida.
E um olhar absorto e cansado,
Abraça a crepitante fogueira,
Atiçada pela tosca lareira,
Onde espirais de fumo dançante,
Desenham nítida imagem
Como insólita miragem
A deixar gravada para sempre
No recôndito da memória,
O reflexo de uma história,
Qual Fénix adormecida,
À espera de renascer p’ra vida.

Pena das Minhas Penas

saotome 12/02/2010 @ 00:50

Quem tem pena das minhas penas,
Quem tem pena das minhas dores,
Quem tem pena das minhas feridas.
De noite, as penas são mais pesadas
E as dores bem mais sentidas.
De dia, o vento sempre as leva
À procura do esquecimento,
Para aliviar meu sofrimento
E desprende-las da minha vida.
Mas à noite, sempre voltam
Porque noutro lugar não encontram
Quem lhes dê melhor guarida.

Cavalo Doido

saotome 04/02/2010 @ 14:32

Porque é que o meu coração
Sempre quieto e mansinho,
De repente disparou
Como um cavalo empinado
Ao estalo do chicote,
Que desenfreou num galope
Como um “ginete” selvagem
Em busca de novos prados,
Para além do horizonte.
Nem a minha voz de comando
O conseguiu deter…
Porque o meu coração,
Que era tão sossegadinho,
Parece um cavalo doido
Sem querer me obedecer.

Alma Peregrina

saotome 31/01/2010 @ 18:36

Quantas vezes a minha alma
Se despe subtilmente de mim
Para peregrinar pelos caminhos
Do Universo, sem fim
À procura de compreender
Porque nos comportamos assim
Com o nosso frágil e belo planeta,
Um pequenino ponto azul
Na imensidão do cosmos,
Que nós tanto maltratamos,
Sem sequer nos apercebermos
Do mal que nos fazemos,
Com a nossa insensatez
Com a absurda ambição
Da riqueza e do poder,
Como se isso pudesse valer
Para nos isentar da morte.
Mas vistos lá do alto
Somos um só corpo celestial,
Sem diferenças de raças ou credos,
Sem fronteiras ou classe social.

Dom da Ubiquidade

saotome 22/01/2010 @ 18:17

Ah! Como eu queria
Ter o dom da ubiquidade,
Para transpor a distância
E o tempo que nos separa
Poder sentar-me a teu lado
Junto à silenciosa mesa
Rústica e enegrecida
Pelas corrosivas poeiras da vida.
Escutar uma música celestial
Com o coração exultado a palpitar
Sem que o tempo por nós passasse
Nem o nosso corpo acusasse
A força implacável da gravidade
E os nossos corações intactos,
Inocentes e sonhadores,
Como dois eternos amores
A ignorarem o peso da idade.

Regato de Memórias

saotome 22/01/2010 @ 17:45

Águas que passais cantantes
Por esse regato de memórias
Que guarda nossas estórias
E segredos inocentes,
Onde o rouxinol cantava
Connosco, ao desafio
E a cotovia escutava
Escondida no caminho
Quando vinhas ter comigo
P’ra espreitarmos um ninho,
Escondido entre o silvado
Que crescia emaranhado
Ao longo duma parede
Como o da poupa arrogante,
Com um cheiro nauseante
Feito de terra e excrementos
Que eu teimava em roubar
Mas tinha que o por de lado
Por não conseguir aguentar
O seu perfume afamado.

Caminho do Cateco-Cangola

saotome 17/01/2010 @ 14:53

Era só um caminho,
Longo, poeirento, esburacado,
Que morria num trilho disfarçado
E perdido debaixo do alto capim
Que adentrava em zig-zag
Pela densa floresta.
De vez em quando, uma lebre
Ou uma perdiz mais destra,
Levantavam-se assustadas
E corriam desnorteadas
À frente dum jipe trepidante,
Até se embrenharem no capim.
O revoar de uma ave de rapina,
Efectuava o mais arriscado rally
Por entre as árvores gigantescas
Que se encontravam por ali,
Perseguindo a sua presa:
Um coelho, um camundongo
Ou uma cobra mais desavisada.
Mas de repente, à minha frente,
Aparecia o meu pequeno riacho,
No seu alvo leito de cascalho
E murmurando, ia-me guiando
Até ao grande Lucala,
Rio largo e caudaloso
Habitat de enormes jacarés,
Com suas margens enigmáticas
Que se abriam em grandes lagoas,
Abrigando as mais belas e variadas
Aves aquáticas,
E eu, deslumbrada
Com tamanha exuberância da Natureza.
Naquele momento, procurava
Sorver aqueles sons e cores,
Todas aquelas formas e aromas
Das mais exóticas flores
E toda a luz que um Sol radiante,
Derramava em mim naquele instante,
E me apontava o verdadeiro Paraíso.

Morada dos Ventos

saotome 30/08/2009 @ 18:27

Subi até à morada dos Ventos
Entre montanhas e desfiladeiros
Seguindo pelos montes altaneiros
Á procura de resquícios doutros tempos.
Meus olhos deambularam pelo horizonte
Sobre a linha indefinida de cada monte.
E dessas alturas senti-me a flutuar
Como nuvem leve e contemplativa
Que vê o mundo como um astro a girar
Silencioso, exuberante e calmo
Com a pujança da natureza soberana,
Numa verdadeira exaltação à vida
Sem vandalismos ou incoerência humana.

Sonhando Com Distâncias

saotome 06/02/2009 @ 22:24

O dia já despertou
Quente e luminoso
Lá fora um Sol radioso,
Dando às cores a magia.
Por isso vou à beira mar
Deixar a minha nostalgia
E espraiar o olhar
Pela imensa vastidão,
Até o perder na fusão
Do azul cinzento e profundo.
Porque além do horizonte
Oiço a voz dum novo mundo
Que me instiga a sonhar
Com longínquos voos
Não nas asas duma gaivota,
Mas nas asas dum avião,
Que me levará a lugares
Que ainda não conheci,
Como às ilhas do Havai,
Ou às estepes na Sibéria,
Quem sabe à tundra
Dum Árctico florido,
E aquecido
Pelo Sol da Primavera
E num desses remotos lugares
Estejas tu à minha espera.

São Tomé

Natal de Hoje

saotome 15/11/2008 @ 15:17

É só um céu a fingir
De luzes e cores ofuscantes
Ao arco-íris roubadas
E muito bem embrulhadas
Em papel para presentes.
É Natal!
O mundo rejubilou
E o Dia vai festejar
Muitos irão reflectir,
Interrogar-se-hão…
Quanto tempo ainda p’ra vir
Quantos clamores soçobrarão,
Até tocarem o humano coração
E um verdadeiro céu se iluminar
Com o brilho omnipresente
Da Estrela da Paz,
Do Amor e da Fraternidade,
A inundar toda a humanidade.

São Tomé